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ENTRE TESTES DE ELENCO PELO ZOOM E PRAIA DE NUDISMO, O ATOR JORGE NETO ENCONTROU A PAZ PARA RESSIGNIFICAR SEU TRABALHO (E LUGAR NO MUNDO) NUM CANTINHO EM FLORIANÓPOLIS

Ele deixou São Paulo para morar em uma casinha com um quintal de terra na Barra da Lagoa, reduto de pescadores e manezinhos da ilha

 

"Estou em busca de algo mais líquido, mais fluido, sem ser preciso que eu e o outro estejamos dentro de uma caixa. A ideia é transbordar e perceber as vontades do corpo", diz o ator Jorge Neto, 30 anos, divagando sobre o amor — mas poderia muito bem ser sobre sua relação com os lugares que chama de casa. Em especial, o atual.

 

Nascido em Umuarama, no interior do Paraná, se mudou para Lisboa na adolescência, depois viveu um tempo em São Paulo — num apartamento e num coliving — e no fim de setembro de 2020 se jogou para Florianópolis, em Santa Catarina, para viver com um"romance", como define; feliz da vida com um quintal cheio de terra. "Meu pai foi adotado por uma família de japoneses que plantavam verduras para vender nas feiras locais e a minha mãe é afroindígena, filha de uma mulher que sabia mexer com plantas, fazer chás e outras coisas passadas de geração em geração. Além disso, a gente morava em um sítio. A minha relação com a terra é enorme", conta."Agora, tenho um quintal que me permite cuidar de uma horta, sentar e respirar um ar puro. Isso traz uma leveza ao meu trabalho, porque, como ator, tudo ao redor acaba se refletindo no meu corpo".

 

O ator paranaense Jorge Neto: quintal com horta, corrida e bike na praia | Créditos: arquivo pessoal

 

Sua relação com Floripa também é antiga. Começou em 2014, quando visitou a cidade a convite de um outro"romance". Fez boas amizades e gostou tanto que passou a voltar com frequência."Inicialmente, parecia uma cidade apenas de gente branca, porque só via brancos tanto nas áreas turísticas quanto trabalhando nos supermercados e lojas. Com o tempo, percebi que havia uma segregação, como se tentassem passar uma imagem europeia meio cafona, e que existia, sim, uma população preta, mas ela estava no centro da ilha e nos morros", diz."Em paralelo, fui entendendo melhor a cidade, e vendo que talvez fosse possível viver aqui mesmo com todas essas questões. Ter uma vida com qualidade, seguindo o meu caminho junto às pessoas que tenho vontade de compartilhar a minha existência no planeta."

 

O lar do momento fica na Barra da Lagoa, tradicional reduto de manezinhos — como são popularmente chamados os nativos da capital catarinense — e pescadores bastante popular entre surfistas iniciantes. Além de ser ponto de partida para trilhas que levam a paisagens exuberantes como a das Piscinas Naturais da Barra da Lagoa, a região é próxima dos dois lugares que Jorge mais gosta da ilha. A Galheta, uma praia de nudismo onde costuma correr admirando as rochas gigantescas que compõem o cenário e a Lagoa da Conceição, lugar ideal para pedalar, tomar uma cerveja gelada e observar o pôr do sol."Floripa tem feito muito bem para minha saúde física porque meu corpo voltou a se movimentar. Isso me dá mais disposição para trabalhar e escrever", conta o paranaense, que também é roteirista, cantor e compositor.

 

No começo de 2020, quando a pandemia transformou o mundo em uma ilha, Jorge estava em Berlim, na Alemanha, participando da Berlinale Talents, programa do cultuado Festival de Berlim voltado para novos cineastas. Chegou ali pela sua atuação no curta Primeiro Ato, dirigido por Matheus Parizi, e no minidocumentário Derreter o Derreter, parte de seu projeto musical OJO — no currículo ainda tem as séries Pico da Neblina, da HBO, e Feras, da MTV. Ainda em solo alemão recebeu a notícia de que as rodagens da série de uma plataforma de streaming que iria participar tinham sido adiadas para 2021. Isso fez com que, em meio a testes online como ator, seu foco se voltasse para a escrita de roteiros de um longa e de uma série. 

 

 

"Esta vida mais saudável também me beneficia como roteirista. Me sinto mais poroso em relação a qualquer texto ou informação que recebo", diz Jorge."Quando me sento para escrever, consigo focar mais e escrever uma quantidade que não costumava produzir em São Paulo". No começo, improvisou um escritório na sala se aproveitando da proximidade com a televisão na qual assiste aos filmes que usa como referência. Por fim, comprou uma mesa dobrável, que roda a casa à procura do cantinho mais calmo, de onde o sol está batendo ou, dependendo do momento do dia, não está batendo.

 

O que não muda é a trilha sonora ditada pelos passarinhos, que permeia o"escritório líquido’’ e as reuniões por videoconferência. Quando o tom das vozes aumenta muito, é a vez dos lagartos da região se agitarem e roubarem a cena, a ponto de Jorge mutar as conversas até que a harmonia do lugar se restabeleça. "Durante muito tempo me dediquei inteiramente ao trabalho, fazendo com que parecesse mais importante do que a minha vida", diz. "Agora, estou conseguindo ter um equilíbrio maior, transformar a minha relação com ele, e me respeitar mais. Mesmo que eu esteja toda hora com um bloco de notas em mãos escrevendo algo, a sensação é de estar em casa."